17 junho 2010

Um fonema

De quem são os poemas?
Rio de janeiro.
O rio está sempre em janeiro
Inclusive em janeiro é o seu dia.
Risos e mais risos
Rios e mais rios
Um fonema rascante
rigoroso
retumbante.
Será sempre o som
dos sambas poéticos.
Rio.
Rio.
Rio.
R.

09 junho 2010

Um samba e uma saudade

Sai
pra beber
umas cervejas.

Você chegou
e sentou na mesa
ao lado.

Eu cheguei
você veio
Eu cheguei
você veio.

Estávamos na Lapa.
Cerveja de garrafa.
Suor. Calor.
Mesas pequenas.
Calabresa.
Batatas fritas.
Salaminho.
Feijãozinho.
Pessoas,
enfim...

Você veio
pediu licensa
e me acompanhou

Depois de um tempo
Falou:

- que saudade!
(você fez falta!)

"Quem não gosta do samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
ou doente do pé"

Você cantou a noite toda.

Uma relação promíscua (porém, feliz).

Entrei
abracei a menina
e trouxe ela pra casa.

Não precisei conversar
Nada de jantar
Sem carinho
Nada de flores
Sem expectativas
Nada de conquista
Sem paixão
Nada de dores
Sem dissabores
Nada de mentiras
Nada de mentiras
Sem cinismo
Sem cinismo

Resolvemos namorar
e foi sexo
sexto, simplesmente.

Nossa linguagem
perfeita
era o corpo
Vivemos em paz
por anos
nem eu
nem ela
vestíamos personagens
Ela nunca quis ser
além de si
e mentir com a pele.

A prostituta foi honesta
nunca fingiu ser
(A prostituta).

O espaço que se ocupa

Enquanto você me deixava
outra se aproximava
discreta,
sem alarde,
humilde
e despretensiosa.

Veio de calça jeans
blusinha branca
havaianas
andando
e sorrindo.

Tinha convicção
Sabia o que era
e tinha certeza
do seu espaço:
nunca temeu viver.

Seu nome:
simplicidade.

Um murro, um pontapé, um discurso

Cazuza deveria estar entre as pessoas
um pouco de provocação
o espinho da inquietude
a vontade de vida
o desejo de experimentar
a abertura plena para o novo
o desmascaramento da hipocrisia
desregrado
porra-louca
anti-burguês
fragmentado
inconsequente
desgovernado
descentralizado
inconstante
como ele diria:
exagerado

Ele gera medo
nos castelos de cristal
supostamente indestrutível
mas visivelmente frágeis e ocos
prontos a implosão

Ele gera pavor
pela destruição da previsível
rotina
nos castelos
da monotonia da acomodação
suspira pelo concreto
e anseia pela máquina.

Um corpo de linhas tênues

Na poesia me disfarso
para me ver invisível

quero estar nas entrelinhas
de metáforas me componho

Quero ser o prazer
sem o toque

Quero ser formas
em cada leitor

Sou uma prostituta
que não faz sexo
nem mostra o corpo
não toca
não dança
mas incita a desrazão
no prazer incorpóreo
da linguagem poética:
a sugestão.

Uma doce morte

No dia que te conheci
tive um espasmo
vomitei tanto
que até hoje
meses depois
sinto o estômago latejar
e a garganta arranhar.

Quando te conheci
Me vi um rato
Me senti sujo
um animal despresível
o pior deles
inescrupuloso
Até hoje não me livrei do fedor
nem me despi do caráter.

Quando te vi
virei um limão
fiquei ácido
e amargo
como um doce de morte
que comi cada pedaço
até me ver
um homem.

Viciado

Me encontrei entre
cachaças
Várias doses espalhadas
pela casa
no carro
no trabalho
até na praia

Sonhava com copos
cheios
cheiro forte
Lá os copos
ficavam em mim
Aqui, eles ainda estão
mas o líquido evaporou
das bordas
que transbordavam
Agora,
O copo pode ser tocado
sem derramar
A mesa pode balançar

(Eu poderia virar o copo
e seguir
em frente
mas o conteúdo permaneceria
em mim

s e m e v a p o r a r).

O antes O agora O eu

Você voltou
e agora o tempo anda
sereno
sem pressa

Me apanhou nos braços
me deu beijos com os olhos
e carinho em palavras

Você voltou
Você voltou

Me sentiu na solidão acompanhada
Sensível
pressentiu meu choro silencioso
e bebeu minhas lágrimas desnecessárias

Me levou a um lugar alto
onde o vento frio soprava no rosto
enquanto o horizonte
varria o antes
e refazia o agora.

Você voltou
Você voltou

Os dias distante
pareciam um sem fim de nádegas
e seios

Os dias sem você
foram um mal descartável
porque longe
houve a cegueira em tempos
de cólera

Você voltou
e os dias em você
lavam o equívoco

Você voltou
e nos escolhemos:
seja o que puder
você voltou
e trouxe
a despretensão.

Hoje

Ontem estava assim
Hoje está agora
E amanhã estará hoje
Como nunca deveria ter deixado.

02 junho 2010

Uma morte pedagógica

Desci ao inferno da terra
e conversei com a morte.
Até que ela não é tão assustadora assim...
Inclusive me ensinou algumas coisas
Como andar em pregos
Deixar cada um atingir os ossos
E depois retirá-los
Sem pressa
Vendo o sangue escorrer.

01 junho 2010

Hoje não é mais ontem



No centro
e sozinho
Vou ao encontro
do porvir
Em nome de mim
e pelo abrigo
do desconhecido.
Encontrei o abraço:
no excêntrico espaço
da loucura.
Onde vivem os grandes
de onde correm os fracos.

Não

Hoje foi o primeiro dia
Sem ver o pôr do sol.
Vim direto pra casa depois do trabalho.

Uma crônica anunciada.

A outra roupa

Pedro vestiu as roupas
tomou seu café
e saiu pela porta.
Sentiu uma coisa estranha
mas não sabia o que era.
Trabalhou e voltou.
Em casa, trocou as roupas,
e viu que estava no quarto errado
com as roupas de outro nome:
Paulo.
Alguns meses,
esteve no quarto de Paulo
com as suas roupas.
Preferiu, neste dia,
andar nu.

25 maio 2010

Conto gotas mastigo sombras

Vou contando
Inspiro
Expiro
Inspiro
Expiro
...
...
...
Quando os números se perdem
O ar já se foi
e está tudo negro...
Neste lado obscuro
Penumbra e sombra
Vejo os dias erguendo muros
Um a cada hora
e as lembranças se isolam
Uma e outra
O garoto serelepe
O menino falante
A criança alegre
O moleque curioso
O baixinho atarracado
O miúdo afetuoso
Elas se deixam
em farpas cravadas entre as unhas
Uma gota escorre
Outra
...
...
...

O sangue muda de tom
escurece
ganha densidade,
arranca as farpas,
coagula o tempo ,
demole as paredes
e se vai em cálice:

Bebo ar
mastigo sombras.

10 maio 2010

A carne animal

Olhos nos olhos
Lábios nos lábios
Corpo que age
Razão que reage
O corpo vence
A razão sucumbe
A carne faminta engole o beijo
Transforma-o em alimento
Sacia o desejo
E dorme.

05 maio 2010

O conteúdo

O que tem dentro da garrafa?
"Para saber,
Basta abri-la".

Não quero vê-la sem tampa.
Pelo menos por enquanto,
Eu acho.

É necessário saber o conteúdo?
Por quê?

Vou abri-la.
Não, não vou.

“Deixe-a fechada.
Fechadinha”.

A garrafa não é totalmente
Transparente.
Vejo a imagem do conteúdo.

Pus os óculos.
Comprei uma lente.
Fiz uma luneta.
Nada.

Ainda existe a garrafa.
O vidro entre mim e o conteúdo.
Posso abri-la ou quebrá-la.

?
Uma pontuação insistente.

04 maio 2010

A lâmina

Recebi um bisturi
de mãos alheias

Cravei a lâmina no tórax
Rasguei a pele
Quebrei os ossos
Até o meio do peito

Com as mãos
Abri a caixa torácica

Talhei outro nome
Em minhas artérias
E mudei a forma de meu coração

Cheguei até os pulmões
E bloqueei a entrada
A saída
E a presença do ar
Fosse carbono
Fosse oxigênio

O bisturi
O bisturi
O bisturi
O bisturi
O bisturi
O bisturi
O bisturi

As imagens
Turvas
Os olhos pularam
A garganta trincada
O sangue explodindo na cabeça
Saindo pelos poros

O bisturi
O bisturi
O bisturi
O bisturi

Eu aceitei
Não me obrigaram
Mas não é meu
Não sou eu.

Por isso,
Vou respirar.

26 abril 2010

O som do poeta em surdas melodias faladas

Em meus sonhos de escritor,
acordei no próprio sono,
ao lado dela.

Não tinha rima,
não tinha métrica,
nem precisava de ritmo;

era a simples poesia,
que se faz na melodia da fala,
no som do tempo,
no tom das horas,
no sangue do agora,
que é o quando-sempre do poeta.

Entre, você!

A morte se encontra na vida
Minha vida é refém do fim
Esta morte é mais do que sabida
Vaga inteira dentro de mim

Os dias somem no infinito do tempo
As palavras sorriram antes
Amanhã não são mais do que instantes
A correr sem direção

Os sons que voam pelo vento
Se tornaram frustração
Depois do amor vivente
Soluçamos pelo fim da recordação

Seria eu um morto-vivo?
Estaríamos nós ainda entrelaçados?
Seria eu um doido-varrido?
Estaríamos nós à espera da solidão?

Não pergunte aquilo que conheces
Não questione a ilusão
Só sabes quando cresces
Na presente indagação

Rimar não mede o esforço das palavras
Minha incapacidade é gritante
Tanto que agora me desfaço do sonho
De ser além de poeta

Não há espírito que suporte
Minha completa inanição
Sou eu refém do acaso
Antes protegido da dor

Maldita hora que soltastes as rédeas do seu amor
Me envolvestes no teu corpo
Como o mar em turbilhão
Aturdido me pus à deriva
Levado pela sonho da escuridão

Antes eu era
Agora não sou
Tenho medo do tempo que me espera
Quero me livrar desta dor

Não me confesso para o mundo
Escrevo para conter meu torpor
Serei um belo canalha
Se correr para os lados do amor
Sem querer amar quem não sou

Se isto faz sentido
Não sei
Quero apenas um motivo
Para sofrer outra vez

Porque sem sofrer não há lágrimas
Sem lágrimas
Não há amor
Dos pés congelados
Do estômago faminto
Me vejo atacado pelas doses de uísque
Que me acompanham neste trânsito
Entre a poesia e a prosa

Um único dia só

Meu pai queria um filho.
Bem, ele veio:
Tinha uma perna enviezada.
Os olhos cor de mel.
Os cabelos crespos.
Criança grande, cabeluda
e pesada.
Logo veio e partiu.

Nuvem desgarrada.
Assiste à luta selvagem
Seus pares que duelam às foices.
Tênue tensão que os separa
Une intrínsecos
E ela, lá, perdida
Firme na sua solidão voluntariosa
Abstrai a vida
Então triste
Então só
Então pura
Então só
É um sofisma
Malícia de Miles
Requinte de Dizzy
Ela é Coltrane
Humana demais
Sensível
E só
Humana demais
É o próprio Coltrane
Enleva-se
Vestida de branco
Voa
Rastro no céu
Forma nuvens
Se perde
E lá está ela:
Sentada, quieta
e só.
Mescla de nuvens
e John:
toda de branco.

Artérias, veias e coração devorados

Engoli meu coração
e ainda foi sem respirar.
Ainda pulsando
pude senti-lo pensar.
Mas como?
Lógica e sentimentos?
Então, discutimos,

E o coração tomou a palavra:
- Sinto o azedume do estômago
Tenho a pele rompida
As artérias interrompidas
Meu sangue agora é nostalgia
Penso porque me contorço.
Não me deixe pensar no escuro
do silêncio
Voz antes sonora, grave
Agora metálica, no fim.
Fujo de mim para não vê-lo
Ligeiro, vago para onde

Longe
Escondido em tua impressão
Está quase a minha presença
Mas estar para não perpetuar
É um não-ser absoluto.
Um morto no seio do corpo aquecido
Um paradoxo camoniano
Aqui arde, ali eu vejo
E quero mais
Durmo para que minhas impurezas
Se diluam até tomar forma de idéia
E partir para a inexistência do sentir
O coração me disse
E eu continuo...

Um monumento à Poesia

Uma nota de dois olhares sem

O tempo parou e o espaço ficou. Fixaram-se dois olhares no sonho. Antes, contudo, chegaram dois olhos calados. Estes viram disposição no outro, porque sensíveis ambos. Duas atitudes de alma. Duas.

Confiaram desconfiados pela presença dos dois, um no outro; o sentimento inconsciente que vinha preencher a ausência. Ausentes eram até o encontro. Era preciso.

...
...
...
...

O silêncio que marca a respiração, o coração palpitante, o medo, o frio na barriga... Os olhares se buscam, se veem, de longe, desejam. O som sem voz produz o sorriso, a cor dos olhos, a perversidade, o cinismo, a ironia, a sinceridade. Querem estar, no tempo sem tempo, do espaço sem matéria, quando tudo é nada e se torna um absoluto.

Um tempo que fica e um espaço que marca. Os olhares desvendam-se na voz de longe, na madrugada, precisam do cheiro, do abraço, do toque, do outro. Imaginam, deliram, fantasiam, tem medo. Sem medo não se vai, permanece-se estático, aprisionado no tempo e espaço vulgares, porque aquele passa e este se define. Os olhares não têm pretensão, apenas sensação. Sentem como se o tempo de ver fosse maior do que as duas vidas que se encontraram.

Uma lágrima escorre do olhar. Triste pode estar, mas não, não é melancolia, está diante do olhar que fica duro quando cansado. E quanta beleza se vê no seio deste que enxerga até o mais recôndito mistério.


Um poema para a poesia

Você veio de mansinho
Calada como uma noite estrelada
Jogou-se no precipício sem perceber
E me deu as mãos
Pediu baixinho pra que fôssemos juntos
E eu me deixei voar

Estamos vagando pela vida
Como duas crianças encantadas pelo mundo
Descobrindo leves
Ávidos por cada novidade
Surpresos por tanta presença
Assustados pela veloz profundidade
Que só aumenta
Estamos nos tornando experientes
Ainda no berço do sem fim
Fizemos do medo dos mais velhos
Desejo

Do olhar para a poesia

Você me veio em forma de olhar
Mas vai ficar pela ideia
Com uma nomeação sublime:
Poesia.

25 abril 2010

Ele se perdeu na ficção

Um dia eu tive um amigo.
Ele viajou tanto que virou um avião.
Suas asas ainda estão pelo ar.
Sua barba virou nuvem.
Sua barriga agora é chuva.
Ele se perdeu entre o azul e as gotas de palavras
Que
Uma a uma
vêm discutir a existência metafísica do caos
o amor sublime das borboletas
o interior carregado das rosas murchas diante do sol
a vida insana dos homens de pernas e vento
o lado grotesco da cerveja carcomendo os estômagos alheios
os petiscos e sua função redentora para o organismo
o poder da barba como espectro da sociedade patriarcal...

Meu amigo se perdeu
e eu fui com ele
no seio da ficção.

01 março 2010

Os nomes da imprevisibilidade

Entre o espelho e o homem
existem as palavras
Mas entre elas e a experiência
surge a poesia
que sem a metáfora
inexiste para a Literatura

Da imaginação criam-se
o Beija-Flor e o Rubi
que juntos formam a imagem
da Liberdade e da Beleza
Sensíveis apenas ao homem marginal
Único capaz de ver além de si mesmo.

Ele nunca viu o fim do arco-íris
Mas como ver
pode ser a exposição do próprio sonho
O senão do fim
se abriga entre olhar e imaginar.

23 janeiro 2010

A imagem desaparecida

Os olhos cegos
viram o espelho
e a imagem desapareceu

Uma lágrima escorreu do verde-mel
Em forma de castanha, castanha escura

E as cores foram no vento

A imagem está onde as cores se formaram.

15 janeiro 2010

Múltiplas imagens

Fred como personagem
Frederico como identidade
Mas, e agora, paguzzi?

03 dezembro 2009

A mulher e a casa - João Cabral de Melo Neto

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

21 novembro 2009

Da série: pra alguns, perguntar realmente ofende.

O que você prefere ser: a cabeça da formiga ou o rabo do elefante?

15 novembro 2009

Fez

O mar buscou a faca
Cortou as ondas

O sal inteiro sangrou
O que era onda se fez espuma
E tudo se foi secando...

A pouca água que resta está vermelha
e se acabando...

02 novembro 2009

Meta Morfosis

Ainda estava atrás do muro
Onde deixou-se por certo tempo
Longo
Alguns anos

Uma voz construia desenhos poéticos
e desenvolvia princípios humanos.

Viu-se no espelho de seus símbolos.

Neste espelho,
permitiu-se ver o outro lado.

Oi!

A leitura possibilita o diálogo daqueles que estão dispostos ao encontro.
A página dos dias está aberta pronta para ser devorada.
Estas são palavras escancaradas para o convívio.

O olhar dos olhos

A paixão pode criar substantivos
onde nunca houve subtância.
Os adjetivos estão no olhar
Não na cor dos olhos.
O antes é o substantivo
Nunca os adjetivos.
Mas os olhos precisam se transformar em olhar
para ver onde ficam os substantivos.

Menina

A menina foi bordada pelo pôr do sol
Escrita com as linhas do tempo
Vista com os olhos do atlântico.

31 outubro 2009

SIM.

Será?

Cecília via o sonho:
Conversaram
mas este lhe dizia
para não acreditar
E ela pensava:
será?

Quem?

Cabral sentou numa mesa de bar
acompanhado de seu copo
Um lápis e um caderno de anotações.
Via os outros e mais ninguém.
Quem não estava lá?

Por quê?

Drummond saiu de casa
Para encontrar os amigos e conversar.
Deixava, contudo, uma parte de si.

28 outubro 2009

Descrições da vida num pedaço de papel virtual


Digam-me um sonho ou um pesadelo (ou as duas coisas)!

27 outubro 2009

Perguntar pra responder 3

Qual é a definição da palavra AMOR?

25 outubro 2009

Por que abrir a porta é tão difícil?

21 outubro 2009

O som do vento nos braços

Nos braços
os abraços
são laços
criados
pelo coração
explodindo

Perguntar para responder...

Uma pergunta:

Qual é o seu medo?

Vamos, vamos, quero respostas...

15 outubro 2009

OLHOS - PRIMEIRO ATO

Ela ouviu e veio falar, sentia-se bem, reconhecia-se. Ele aceitou, sentou e conversaram. Ela falou mais, receosa, afinal, quem era ele? Palavras medidas, à espreita, querendo dizer, mas evitando falar: o terreno era movediço, estranho, precisava de tempo.

- A exposição é sua própria morte

O mundo vive de olhos; as paredes, as portas, as ruas, os restaurantes, os carros, todos têm olhos sequiosos, porque suprem sua sede a partir das histórias alheias. Os outros vivem de estórias, mas não as deles, mas não as reais: criam, e sem criar suas existências assumem a forma de cadáveres. Precisam do elemento externo, vivem dele e para ele. Agir assim pode fazer pressupor solidariedade, comunhão, apreço e cuidado com o outro. Contudo, não abrace a causa como o absoluto divino, distancie-se, seja. Este que vive do outro é um egoísta nato, pois preenche o seu vazio vital através de falácias e experiências alheias. O que se diz não importa, mais vale é dizer, e assim a ausência compõe-se pela fantasia.

Os olhos devoram a intimidade do outro, engolem sem antes mastigarem uma única vez e deixam para o ácido estômago toda a tarefa de absorção.

E o estômago ácido, que ele é? Aqueles que ouvem as estórias, reproduzem da uma delas e ainda julgam-nas com ar superior. E ácido é ressentido. E ressentido é quem se vê no espelho pela manhã e gostaria apaixonadamente de ser outra pessoa.

- E eles (ela e ele) permanecem conversando...

04 outubro 2009

Fogo fátuo


Olhos
Pele
Carne
Sublime
Vermelho
Sangue
Calor
Sol
Vida
Suor
Ardor
Tortura
Ilha
Navio
Exploração

28 setembro 2009

Do espaço à refeição

Neste espaço onde o espaço é uma criação
Criar se torna um espaço avesso aos limites
Os limites do espaço são as limitações das escolhas
Escolhas que nos levam ao acaso
Ao acaso que nos arrebata do mesmo
E nos leva ao indefinido
Indefinido que nos cerca
E cerca para devorar.

A prostituta

Uma prostituta
é uma presença física irresistível,
um jeito animalesco de olhar,
de sentir, de querer, de tocar...

Ela representa o que todos querem
O desejo à flor da pele.

Estar

O espaço onde esteve
é o espaço onde estive
O espaço onde estou
é onde está
O espaço onde estaríamos
é onde realmente gostamos de estar.

27 setembro 2009

Uma ironia sinistra: culpa minha




Esta é uma brasileira
Na foto do jornal
sem nome

Mas o seu nome é:
Edmar Paula Mattos

Pobre
Favelada
Marginalizada
Estigmatizada
Isolada

O filho não será enterrada
Não há pão
Não há fubá

O consolo foi um tapa nas costas
E um pedido de compreensão:
Ela precisa entender o lado da polícia, diz o responsável pela ação estratégica e perfeita.

Uma morte perfeita
Uma mãe muda

O Estado mata
o cidadão morre
a família chora
E as lágrimas
dizem:
É, foi inevitável
a única alternativa.

A luz macabra

Alguns disseram:
- Deus iluminou o policial!

Deus é vida,
não é morte

Quem retirou a vida
foi um homem
Um assassino
Mas um assassino legal
Todos vibraram
Afinal
Bandido tem que morrer a bala

E continuamos reféns
de nossa ignorância
da pusilanimidade
do egoísmo
da preguiça

Por que mudar
se é mais fácil matar?

Amanhã mais um será exterminado
e todos continuarão nos bares.

O nada brasileiro

Um tiro na cabeça
Aplausos
Consagração
E liberdade
Heroísmo

Enfim
Mais um negro
brasileiro
desempregado
desesperado
desamparado
Some
como se o o nada
representasse
a nossa brasilidade

ASSASSINATO em nome da SEGURANÇA?

Duas mães, dois dramas distintos. No mesmo momento em que Ana Cristina Garrido agradecia ao major João Busnello, no sábado, Edmar Paula Mattos chorava a morte do filho. Sérgio Ferreira Pinto Júnior foi morto com um tiro disparado pelo oficial da PM sexta-feira, em Vila Isabel, quando mantinha Ana refém. Edmar, que trabalhava no dia da ação, não acompanhou os últimos minutos de vida do filho.

- Eu não queria que ele (Sérgio) tivesse morrido... Mas os policiais fizeram um ótimo trabalho - disse Ana, que recebeu a visita do major Busnello e relembrou os momentos do dia anterior:
Vídeo mostra a emoção do encontro

- Na hora do tiro, pensei que tivesse sido atingida. Corri pelo instinto. Eu lembrava muito do Caso 174, em que a refém morreu, mas pedi a Deus para sair viva. "A polícia poderia ter esperado"
Longe dali, no Engenho Novo, a mãe de Sérgio recebeu a equipe do EXTRA em casa, e também relembrou o drama de sexta. Em meio a lágrimas, suspirava:

- A polícia poderia ter esperado um pouco mais. Ele não ia detonar a granada, a índole dele não era essa - lamentou Edmar, que trabalha como doméstica.

Segundo ela, Sérgio concluiu o ensino médio e estava desempregado há três anos. Era chamado para entrevistas, mas não conseguia ser contratado:

- Ele estava desesperado, achava que tinha que me dar do bom e do melhor. A irmã de Sérgio, Karen Patrícia Mattos, de 22 anos, questionou a ação policial:
- Não precisava dar um tiro na cabeça dele.

Edmar prestou depoimento à polícia no fim da noite de sexta-feira e revelou que esteve com o filho no domingo anterior, quando ele levou a filha de 3 anos para vê-la. A família ainda tenta arrecadar dinheiro para conseguir pagar o enterro.


Saiba mais:

Coronel Príncipe pede que família do homem morto entenda a PM

Ana diz que Deus iluminou o policial



20 setembro 2009

Mulher-poesia

O mistério da poesia
Alimenta a descoberta
feminina

Mulher e poesia
Expressões de uma mesma origem
Cujo caráter dissimulam

Erotismo
Corpo que marca a forma
Mas não mostra a pele

Para chegar-lhes
aos

p
é
s

É preciso um olher
Lírico e encantado
pela aurora

Se nascer se torna
um hábito vulgar
A poesia morre
(Falece)
(Fenece)


(...)
(...)
(...)
(...) Esquece e nada diz...

Espaço dela

Só me expresso
no espaço
da poesia

Só me expresso no espaço da poesia


me
ex
presso
no
es
pa
ço
da
po
e
sia

Só me expresso no
espa
ço da po
esia

Poesia
P
o e s
ia

E foi.

A poesia do abraço

Caminhei sozinho,
mas atrelado a sua ideia
Pude beijar
E sentir
Sem temer
Dei as mãos
Recebi um abraço
E nos braços longos para a despedida
e fortes para o afeto
Deixei-me viver
Pois estou nos olhos
da poesia.

O dia e o dia

João morou em um apartamento
Quarto e sala
Banheiro pequeno
Não conheceu os vizinhos
Ia e vinha do trabalho
Sem dizer nada
Não olhava as pessoas
A cabeça pendia pra baixo
Caminhava decidido
a voltar pra casa
ou chegar ao trabalho
Não queria os outros
Até se tornar ida e vinda.

Telefone Celular

João ganhou um celular
Andava com ele pra todos os cantos
Certo dia, recebeu uma ligação
E virou um telefonema.

Redescoberta

O português chegou ao Brasil
Viu o índio
As praias
A natureza
E pensou estar no paraíso

Logo, a incredulidade
Cedeu espaço para a vontade
E o paraíso virou cidade.

Na cidade
que ainda é um pouco natureza
um brasileiro chegou
Sentou diante da noite
Viu o céu estrelado
Ouviu o mar cantarolar
Sentiu a brisa de sua voz
Ficou

A beleza era uma ideia
produzida pela percepção poética
do instante presente.

Domingo

João calçou as havaianas
Foi comprar o pão e o jornal
Voltou e fez o café fresco
Abriu a geladeira
Pegou a manteiga
O alface
O tomate
Um copo
E leite

Enquanto comia
Leu o jornal
Ouviu o gato miar
E os apartamentos vizinhos
Começando a levantar

Todos os dias se transformaram em domingos
Mas sem os domingos.

As fotos em João

João acordou
Tomou café
Cortou os pulsos
Encheu um copo
E bebeu o sangue
Ainda quente

Passaram-se dias
E o sangue escorria
Lento
Pelas pontas dos dedos

Ele queria mesmo
Não pensar.

Esteve

Um pingo de chuva.
Uma lágrima.
Néctar das flores.
Desejo dos beija-flores.
Um telefonema.
Uma lembrança.
Uma parte:
longe, alma.
perto, carne.
E assim seguimos:

carne, alma, carne, alma, carne, alma, carne, alma, carne, alma... (...) (...) (...) (...)

14 setembro 2009

Morto

Qual é a pior morte?

Uma porta se abre
Um passo apenas para atravessá-la
Segundos demorados
Olhos que se entrecruzam
A memória dilui tudo em pó
Mas permanece viva
Em turbilhão
As experiências viram imagens disformes
Tudo o que foi
Formam dias inteiros em um delírio
Pessoas, bares, lugares, bebidas,
Casas, quartos, camas, sexo,
Brigas, carinho, sentido, sensações
Horas para anos
Uma dor sem razão

Alguém se foi
Alguém morreu
Ninguém ficou.
Tudo chorou.

A morte na vida
Ou a morte da vida.

08 setembro 2009

Do prosaico

"A coisa mais fina do mundo é o sentimento", Adélia Prado.

...

O lirismo do cotidiano produz o sentimento sublime e simples.
O prosaico define a grandeza do mundo
O medo da rotina marca a realidade inventada pelos homens que esperam um grande evento.

07 setembro 2009

Copo, borracha e mesa

Comprei um copo de vidro
E pus na mesa
Comprei uma borracha
E pus na mesa
Peguei o lápis
e comecei a escrever minha biografia
Depois de um tempo
Cansei-me
Espalmei as mãos
E quebrei o copo

Não senti dor

Cacos e restos enfiados pelos ossos
tendões, unhas e veias
Tudo dilacerado

Não senti dor

Com a borracha
apaguei o que escrevia na mesa.

Madrugar pra quê?

A vida é uma eterna busca por
melodias frustradas
encantos de palavras
perversas

A escolha do dia
é a morte da tarde
é a doença do dia

No dia
de dia
Razões

À tarde a fuga
À noite a chegada
O encontro dos símbolos
Os rostos ganham contornos inacabados
Os corpos se viram em sombras
E as vozes, o murmúrio

É na madrugada que nada passa
e tudo fica

É na madrugada que a experiência
muda o jeito de ser

É na madrugada que amar faz sentido
e o sexo é prazer

É na madrugada que o trabalho do copo
vira a construção do ser

É na madrugada que a bebida se levanta
e deixa ser

É na madrugada que a noite engole o dia
pra poder viver

É na madrugada que os homens do dia morrem
porque não mudam,
seguem.

É na madrugada que os sapatos e o terno
viram motivo de sarcasmo
(indiferença)

É na madrugada que os sapatos ganham
daqueles que os calçam

É na madrugada que os espelhos se quebram
e os outros ganham vida

É na madrugada que o mendigo acorda
vive e produz

É na madrugada que o cão sarnento exala sua doença
e todos querem abraçá-la

É na madrugada que a morte ganha vida
a história é vivida
e faz parte da saída

É na madrugada que o sol se torna uma doença
Porque o seu sorriso é uma luva cirúrgica
que abre os ossos do peito
e desperta corpo da solidão.

Frases dispersas

A viagem que pensamos é aquela que deixamos.

A amor que se vai é a morte do sorriso.

O sorriso comedido é a eterna paixão.

O sorriso exagerado é uma máscara de césar no rosto do plebeu.

A imaginação move os pés de nuvem, pés que se deixam voar.

As pessoas são como os dias: vão e vem
A pessoa, no entanto, pode ficar ou não.
Nós é que dizemos: não ou sim.

As frases que dissemos
Mentem pras próprias palavras
Porque o que sentimos
precisaria sempre de novas palavras
pra dizer o que deveria.

Frases perdidas

Houve uma guerra
poucos saíram vivos dela
Muito sangue escorria pelas pernas
Muitos braços
Dedos perdidos
Pés descalços
E esfacelados
Cabeças a rolar
Mas o que é a guerra
senão a renovação?
Ela não precisa de armas
soldados
balas
tanques
generais
táticas
E do que ela precisa?
Disposição.
Sem ela,
nos desencontramos
E o desencontro é a frustração.
E você, o que quer:
a guerra
ou a frustração?

11 agosto 2009

Será?


Evolução das relações humanas
Já estive nesta casa, inclusive naquela piscina. Creio eu ter ainda encostado neste muro...
Depois de alguns anos, eis que a Fernanda Lima está na mesma casa e no mesmo muro.

Cheiro do Ralo - 1ª Parte

Ontem, resolvi observar as pessoas sentadas nos bares. Sai de casa excessivamente curioso, um tanto ressentido, alguns diriam, desocupado, outros afirmariam. Entretanto, motivou-me uma teoria: o cheiro que as pessoas exalam. Não confundam a ideia com um mero perfume comprado em free-shop, ou aqueles vagabundos que à preço de banana arranjamos vários na Uruguaiana. Refiro-me àquilo que nasce das palavras, um cheiro de restos de lixo, vagando entre o imoral e o casto, passando pelo sagrado e tocando o profano. Encurtando o caminho: chorume.

Ainda não sabia onde, mas sabia o que queria. Sem carro, fui de táxi. Pedi ao motorista que me indicasse um restaurante ou bar ou qualquer lugar onde pudesse me sentar, comer decentemente e beber uma cerveja gelada. Como resposta, um sorriso, porque minha escolha era absolutamente vaga, poderíamos parar de Duque de Caxias ao Leblon. Pois bem: disse que gostaria era de ouvir as pessoas, esconder-me nas páginas de um livro para livremente recolher suas máscaras. Outra resposta sorridente: o senhor tem problemas?

Depois desta resposta, fiquei extremamente irritado e logo pedi para levar-me ao Lamas. Não sei se ele percebeu, mas retirei meu livrinho da mala e comecei a ler. Duvido que tenha pensado na possibilidade de eu tentar minha estratégia com ele, afinal de contas, estávamos a sós no carro.

Reconheço que aos olhos do leitor minha atitude se aproxima da vida dos solitários, que andam pelas ruas, lembrando dos amores passados, das escolhas sem sucesso e, sobretudo, das atitudes que poderiam, mas não foram. Se é um engano, não cabe a mim dizer, mas digo assim mesmo: o que não é um engano para a vida do chorume?

Estive a ponto de abandonar o carro sem pagar pela corrida, mas, por um instante, um sopro de moralidade e sanidade mudou o rumo do vento que me lançava, quase à força, a entrar no bar e a ignorar que o táxi era minha responsabilidade. Quinze reais e vinte centavos, disse o motorista. Dei-lhe quinze, e virei as costas.

Senti certo remorso, mas o que é o remorso senão a prática de uma atitude social e solidária? Paguei com a mesma moeda: como não recebera, não tinha o que trocar. Atitude meramente vingativa ou seria própria?

À porta principal, Doutor Carlos me trouxera aquele largo e farto sorriso que falta, e muito, aos garçons de hoje. Você vai dizer que há exploração, por isso a atividade deles se torna mecânica e distanciada. Leu algo contrário? Se leu, creio que o sol aqueceu demais sua eloqüência ou que a bebida pode ter prejudicado o seu juízo. Beber e estar ao sol deveriam ser dois momentos complementares e produtivos.

Sentei-me em um canto, mas de onde poderia ouvir a conversa de boa parte do restaurante. As paredes espelhadas me provocavam certo acanhamento, pois me obrigava a olhar as pessoas pelas infinitas possibilidades visuais que o ambiente proporcionava. Os olhos dos outros sempre produziam temor aos meus, como se o meu segredo fosse descoberto e pudesse ser considerado solidão. Medo de ver nos olhos alheios a solidão que pode estar escondida dentro de mim, assim como em qualquer ser humano.

Uma caneca de cerveja e uns bolinhos de bacalhau: pedidos de sempre e uma companhia que sempre ajudou a tornar minha tarefa imperceptível. Pedi meus camaradas de introspecção, e, como não acontecia, comecei realmente a ler. Lia e fazia anotações, até perceber um assunto interessante à minha esquerda, onde conversavam dois amigos.

Para não saber a idade e por isso pressupor idéias, princípios e preferências, enterrava os olhos nas linhas do capítulo, mas sem prosseguir a leitura, era puro teatro. Não via linhas, via uma macha acinzentada que me relacionava ao significado das palavras ao redor. Eis o diálogo:

- Foi à praia ontem?
- Acabei indo, tinha terminado de organizar uns papéis do trabalho lá em casa. Mas acabou ventando demais, uma horinha só de praia.
- Encontrou alguém conhecido?
- Aham! Lembra daquelas duas que conhecemos na viagem pra Saquarema? Dois meses já, né?
- Isso tudo? Até que foram duas boas companhias. Nem esperávamos, e elas sentaram na nossa mesa, caras de pau completamente. Assim é melhor, facilita o nosso trabalho e o delas. Mas, e elas?
- Continuam bonitinhas.
- Não foi isso que eu perguntei...
- Porra, então pergunta direito!
- Marcou alguma coisa?
- Claro, tá achando o quê?
- E qual vai ser?
- Amanhã, dez horas na casa da loirinha.
- Na casa dela? Mas as duas não moravam em Saquarema?
- Acho que a loirinha se mudou... Que diferença faz, a gente vai economizar até no dinheiro do motel. Ela disse que até a bebida e os petiscos ia comprar.
- Assim parece até piada. Quem vai?
- Só nós quatro: eu, você, a loirinha e a outra que você pegou.
- Não tinha uma amiga melhorzinha não?
- Sexo, bebida e comida de graça e você ainda quer escolher? Parece que a sua começou a malhar... Aquela barriga dela deu uma diminuída.
- Menos pior.
Vocês vão pedir uma palavra minha. Preciso dizer alguma coisa? Sem preguiça, por favor. Ainda continuarei o diálogo e as minhas considerações já serão ditas.
Hiroshima foi uma "vitória" da ciência

Arnaldo Jabor

O GLOBO - 11/08/09

Eu ia escrever sobre as bombas de lama que caem sobre a população brasileira, enviadas pelos senadores do mal. Mas, lembrei-me que há cinco dias (64 anos no túnel do tempo), em 6 e 9 de agosto de 1945, os norte-americanos destruíram Hiroshima e Nagasaki. Ninguém fala mais nisso. Os jornais esqueceram. Por isso, todo ano me repito e escrevo sobre a bomba nessa data, não para condenar um dos maiores crimes da humanidade. Mas para lembrar aos que fazem o favor de me ler que o impensável pode acontecer sempre. O horror se moderniza, mas não acaba.
Agora, não temos mais a Guerra Fria; ficamos com a guerra escaldante do deserto - nações islâmicas e nucleares -, a mais perigosa combinação: fanatismo e poder. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado, a máquina americana comandada pela lógica do turvo capitalismo, apesar e além de Obama. De outro lado, os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte. Imaginem homens-bomba nucleares... Paquistão, Índia, Israel e, um dia desses, o Irã. Sem falar na Coreia do Norte, Rússia e na inveja letal que o grande progresso da China poderá provocar no Ocidente americano.
Vivemos hoje na era inaugurada por Hiroshima: um tempo em que o suicídio da humanidade virou uma escolha política e militar. Os computadores do Pentágono oscilam: valerá ou não a pena continuarmos atômicos? Há poucos meses, no trágico período Bush, já recauchutaram 10 mil bombas "velhas", para que rejuvenesçam e durem mais.
Em Hiroshima, inaugurou-se a "guerra preventiva" de hoje. Enquanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século 20, por conta de contradições ainda do século 19, o espetáculo dantesco de Hiroshima marca o início da guerra do século 21, continuada na destruição do World Trade Center em 2001.
Auschwitz e Treblinka ainda eram "fornos" da Revolução Industrial, mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em um minuto o trabalho de meses e meses do nazismo.
O que mais impressiona na destruição de Hiroshima é a morte "on delivery", "de pronta entrega", sem trens de gado humano; morte "clean", anglo-saxônica. A bomba americana foi considerada uma "vitória da ciência". Hiroshima e Nagasaki prefiguram a Guerra do Golfo, Afeganistão e Iraque 2.
Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milênio ariano. As bombas americanas foram lançadas em nome da "Razão". Na luta pela democracia, rasparam da face da terra os "japorongas", seres oblíquos que , como dizia Truman em seu diário, " são animais cruéis, obstinados, traidores". Seres inferiores de olhinho puxado podiam ser fritos como "shitakes".
Enquanto os burocratas alemães contavam os dentes de ouro e óculos que sobraram nos campos, a bomba A agiu como um detergente, um mata-baratas.
Vale lembrar um detalhe espantoso: o avião que largou a bomba A em Hiroshima tinha o nome da mãe do piloto na fuselagem - "Enola Gay". Esse gesto de carinho batizou com fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio que exterminou 40 mil crianças em 15 segundos.
Ainda hoje, é fascinante ver as racionalizações que a América militar inventou para justificar seu crime nuclear. O presidente Harry Truman, que mandou a bomba, escreveu: "Eu queria nossos garotos de volta ("our kids") e ordenei o ataque para acelerar essa volta". Diziam ainda que Hitler estava perto de conseguir a bomba, o que é mentira.
A destruição de Hiroshima foi "desnecessária" militarmente. O Japão estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador e a monarquia.
Uma das razões reais era que o presidente e os falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: "Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado! Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!...".
Além disso, os americanos queriam vingar Pearl Harbor, pela surpresa de fogo, exatamente como o ataque japonês três anos antes. Queriam também intimidar a União Soviética, pois começava a Guerra Fria; além, claro, de exibir para o mundo um show "maravilhoso" de som e luz, uma superprodução a cores do novo Império.
O holocausto sujou o nome da Alemanha, mas Hiroshima soa quase como uma vitória tecnológica "inevitável". Na época, a bomba explodiu como um alívio e a opinião pública celebrou tontamente. Nesses dias, longe da Ásia e Europa, só havia os papéis brancos caindo como pombas da paz na Quinta Avenida, sobre os beijos de amor e vitória. Era o início de uma era de prosperidade na América, dos musicais de Hollywood, pois o Eixo do Mal estava derretido. Até a moda feminina foi influenciada; as mulheres começaram a usar um penteado em cogumelo, chamado Bomba Atômica. Naquele ambiente mundial, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime hediondo. A época estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas.
A euforia americana avança até 1949, quando a bomba H soviética acaba com a festa, instilando a paranoia nacional que vai crescer muito em 1957, quando sobe o "Sputnik", o primeiro satélite soviético, com um "bip bip" que humilhava os americanos - eu estava lá: parecia um 11 de setembro.
Incrivelmente, o holocausto ainda tinha o desejo sinistro de produzir um "sentido" para a matança, um futuro milênio ariano.
Hoje, não há mais objetivos ideológicos ou "humanos" no comando. No lado ocidental, quem mandam são as coisas: a lógica do petróleo, a incessante indústria militar, a paranoia anti-terror que a era Bush tanto manipulou.
Mesmo sem um projeto humano no comando supremo, as bombas desejam explodir. Estamos assim: de um lado, interesses do capital; do outro, Alá. A pulsão de morte e o desejo de mercado se encontraram finalmente. Quem vai controlar?

31 julho 2009

Brasilidade

Uma pintura
concebida lenta
Olhos cerrados
Sem pincel
Sem tinta
Sem matéria
Somente vida
Imagem inconstante
Metamorfose de cores, formas, corpos, olhos,
Mas, em essência,
tudo se vai rijo
Incisivo
Efemeridade pueril
Escancara
Desgoverna
Inferniza
Desmarcara
Uma pintura brasileira
entre o verde e o amarelo.
(ou será azul e amarelo?)

19 julho 2009

Alguém que vem da solidão

Os dias de solidão
são agradáveis
Penso
E fico vendo tudo
Comigo.

Eles desenham
lentos
uma voz
depois um rosto
Até pedirem
em sussurros
uma ligação.

14 julho 2009

Omissão

Agora o tempo é livre.
Mas livre, pra quê?
Não sei o que fazer,
menos ainda o que dizer.

Livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre,
livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre,
livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre,
livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre,
livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre,
livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre,
livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre,
livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre,

A liberdade se tornou uma prisão. Livre?

É possível estar livre de si mesmo? Se é, quando se dá?

O que eu sou senão aquilo que os olhares supunham?

Eu gosto de alguma coisa? Eu prefiro alguma coisa?

Eu amo alguma coisa?
Diz, eu amo alguma coisa?
Diz, eu amo alguma coisa?
Diz, eu amo alguma coisa?

As paredes vêm chegando
O ar se comprime
O pulmão se retrai
A boca sem saliva
Tudo tem olhos
Todos me julgam

Parem de me ver!
Desviem estes olhos!

A sala toda tem espelhos!
As imagens vão até o infinito!
Tudo vem até mim!
Tudo termina em mim!
Fecho os olhos
Vejo olhos!
Penso em nada!
O nada me constrói!
Eu tenho matéria
Eu tenho eu!
Eu, eu sou eu?
Eu sou imagem?
Eu sou mentira!

03 junho 2009

Encontrei você. Foi num dia. Não lembro qual. Mas foi um dia. Estive ali, pertinho, do lado, quase, sentindo o cheirinho. E depois esperei, esperei, e... nada. Espero até agora, daqui, de longe, muito longe, de onde tudo faz parte da saudade. Saudade, uma companhia. Da saudade, vim de lá, correndo, rápido, respirando alto, descompassado. Não cheguei onde queria, nem sabia onde seria. Venho de lá, para cá, e daqui para lá, giro, volto para o mesmo ponto, onde nada começou e tudo vai acontecer. Não espero mais. Não existe razão para parar. Pensar seria um gesto digno. Seria um sonho saber o destino da sua sombra. Encontrá-la é um vestígio de sua presença. Nunca será você. Um espaço que fora ocupado, não é mais. Um movimento já realizado, sem vê-lo para lembrar. Tudo fica, quando se faz lembrança. Tudo se vai, quando é sonho. Vi, lembrei, vivi. Vou na curva, no soslaio para ver. Mudei o grau dos óculos, fiz tratamento. Comprei lentes novas. Não vejo mais a turva imagem do dia. Porém, à noite, as sombras são todas nebulosas, indistintas. Por isso tirei os óculos, minha bengala dos olhos. Todas as imagens tem a mesma cor. Enxergo tudo, até a tua sombra, mesmo que não a veja com muita nitidez. Quero, vejo. Não quero, cego.

27 abril 2009

Por que título?

Só quero o outro
se for a mim mesmo.

Diante da diferença,
uma grande contradição:

- Viver comigo em mim mesmo
para além do interior

Mas terminar
no que sou,
no que fui,
no que serei...

Uma presença árida
e melancólica
entre sozinho e solitária
pelo prazer de estar em mim
e para mim
e assustado por estar fora
e no interior

Esta continuidade inapelável
Movimento inconstante, tênue
que provoca pavor
porque estarei
eu.

Mas, um cheiro, o que é um cheiro?

19 dezembro 2008

Na cama do sonho

Vejo o tempo objetivo
mas quando ele se move
tudo se vai subjetivo.

Contar as horas
é uma perda vital.
Se vejo os segundos,
os anos vagam com a respiração e o vento.
E assim existir se torna morrer sem pensar.

Uma boca, este olhar
um sorriso,
choro, dor
um abraço
lembranças
carinho
brutalidade
Morte.

Outra boca...

Limpei os pés, as mãos
cortei as unhas, o cabelo
Deixei o branco,
as rugas, a calvície
e a corcunda;

todas figuras do tempo
implícito.

Deitei na cama do sonho
e morri para as horas,
fiquei sem o tempo
e voltei à infância
estou sem o tempo
para pensar que sonho

Agarrei-me às cordas da carne
e aos braços da memória e do presente.

16 dezembro 2008

Pára (com acento)!

Uma palavra:
O reconhecimento imediato.
Assim se vai
à espera
...
...
...

?
O que foi
O que vai
O que seria
Perguntas

Mas questionar é um modo de ser
para estar perto de quem se quer
sem poder chegar.

Se não pode
há uma explicação:
tudo é pura convenção.

08 dezembro 2008

Eles, embora aqueles.

Um vento frio, mesmo no calor.
Um tempo presente que não voltará.
Tensão, ânsia, desespero.
Uma multidão que gritava calada.
Uma criança que ama inconsciente.
Uma senhora que amou e amaria
mas ele adoeceu...
A adolescente apaixonou-se
embora ele tenha muita idade
e não seja o que esperavam.
O homem que trabalha
e seus filhos vivem desviados
- grande batalha judicial.

A rua está cheia de gente que vive na rua.
Muita gente passa na rua, mas não vive nela.
E nessa rua cheia onde muita gente vive e outras passam
o dia se divide:
Eles e aqueles.
De dia eles vêm e suspiram: trabalham
De noite eles vão e tragam a si mesmos
(amanhã, um recomeço).
De dia, aqueles não vêm
já foram, não tem retorno.
O tempo é um pai agressivo
Decepou-lhes a cabeça, os pés
e imobilizou os braços.
aqueles deixaram
porque simplesmente nasceram.
Eles tentaram
porque adoeceram depois de nascer
e seguem enfermos
alheios inconvenientes inquietos
in... a... des... dis...

21 setembro 2008

Deixe de escrever e verá o que te espera no fim...

Ontem o dia virou tarde
E tarde, virou o dia.
À tarde, não via mais o sol
e era tarde pra ver o mar.
O mar cuspiu sangue
e o sangue virou a tarde.
A luz tocou a noite
e a tarde se foi em sombra.
Na ausência vem a madrugada
templo do silêncio
e da imagem desfigurada.
Cansada, adormece
e no sonho percebe
quando o dia esquece (...)

Agora

Escrevi estes versos
pra dizer que
agora
eu te amo.
Não, não se assuste não,
porque ontem e nos outros dias
não deixei de te amar.
Meu tempo não é mais meu,
é nosso.
Quando me pertencia,
ele passava,
existiam ontens, hojes e amanhãs.
Quando o tempo é nosso,
ele é sempre presente.
Por isso eu digo
que eu te amo agora.

Sobre Machado - palhinhas leves

A invenção do blogger certamente fez Machado gritar como uma criança ao receber um simples presente dos pais. De plena interatividade, fácil acesso, e sem a dependência das editoras, o blogger se transformou na forma-modelo de contato entre os homens através da escrita. Jornais e livros? Que nada, meus caros alunos e amigos professores. Por isso, o comentário do Fabrício, inicialmente apenas um elogio, passou a ser uma contribuição, justamente o sonho machadiano da troca, do intercâmbio, em que texto e leitor se constroem mutuamente.

Assim, pessoal, nesse ano comemorativo, não da morte, mas da plena vida de Machado, independente das provas do vestibular, as discussões sobre o maior autor de língua portuguesa da história precisam ser levadas rio abaixo.

Muitos acreditam na existência de uma verdade, a suprema e perfeita verdade. Machado, por sua vez desarma o absolutismo, e estabelece a relativização dela, a partir do romance Dom Casmurro. Supercifiais são todas as análises que buscam a verdade sobre a traição, porque é justamente na ausência dela (verdade), que se situa o discurso Machadiano, discurso este, confirmado pela máxima Kantiana: "a verdade não está em si, está em mim". O Bruxo não pretendia narrar um adultério, como haviam feito Flaubert e Eça, mas sim trabalhar com a destruição das verdades inexpugnáveis que nos assolam até hoje, responsáveis por guerras e mortes. Se Capitu foi manipuladora, nós só criamos este mito, em função da voz do narrador do romance, Dom Casmurro, que resolve escrever quando velho e solitário. Então, o distanciamento temporal, associado ao ciúme neurótico do narrador, rascunham uma figura feminina perversa e destruidora. Não há uma verdade aparente, mas sim uma verdade pensada, e pensada por um indivíduo fundado nas razões da emoção. Sim, gritem, questionem, mas a razão é esta sim, por mais contraditória que nos pareça. Como diria a nossa Bossa Nova, "o coração tem razões que a própria razão desconhece". A relativização da verdade, que estaria nas mãos de cada indivíduo, é marcada pela emoção, o que constitui severa divergência em relação ao automatismo e presunçoso Realismo, escola que inviabiliza, para construção de qualquer narrativa, a subjetividade como meio, uma vez que o escritor seria o "cientista da palavra".

Machado, sempre machado, mais atual, e cada vez mais machadiano.
Voltarei com um post sobre Memórias Póstumas, em que Machado destrona a realidade como experiência vivida, e postula uma realidade ampla, que associa experiência, sonho, imaginação e memória.

Até a próxima e sem essa conversa de que Machado é chato, porque chato mesmo é ser óbvio e superficial. Vai, vai, não desconversa, leia!

16 setembro 2008

Somente uma sogra pra passar por isso

Uma maritaca não pode lutar contra sua própria condição de animal. Quer voar, não pode, está na gaiola. Quer cantar, não pode, a casa não permite. Deixam-na, sob uma condição: em horários regulares, quando todos estão fora, ou quando vem visita. Escrava? Não, nunca, ela é preguiçosa. Em seu canto tem paz, comida e silêncio (todos trabalham muito).

Costume. Ficava deitada, asas encolhidas, quieta, aproveitando a ausência completa de ruídos. Um prazer inconsciente, espontâneo. Um bicho, mas um bicho e tanto.

Todos acordavam cedo. Como sempre a maritaca estava deitada, ninguém se preocupava, era comum vê-la dormindo. Entretanto, acharam-na excessivamente cabisbaixa. Com os dedos, a mãe acariciou a bichinha... e nada. Preocupada, chamou a irmã, dona e metida a cuidar de animais.

Ainda do quintal, gritou pedindo para esperar, pegaria, antes, os seus utensílios para tratar a sua prendada ave. Depois de alguns minutos, entra Aparecida, armada com comprimidos, termômetro, estetoscópio, gases, esparadrapo, e muito bom humor e pose.
Filme de terror desqualificado que se torna comédia trash de sábado à noite.

A gaiola estava num canto da área. Cida chegou com cuidado, chamando a bichinha (como todos a adoravam, nem nome tinha). Sem resposta. Objetiva, e nunca passional, levantou a asa dela e mediu a temperatura com o termômetro. Passados os minutos necessários, olhou a medida, franziu a testa, coçou a cabeça e concluiu: temperatura alta. Preciso baixá-la. Buscou na caixa-tem-tudo uma solução: pronto, perfeito. Um comprimido branco. Retirou a maritaca da gaiola, sem muito cuidado, apressada, abriu-lhe a boca e tentou depositar o remédio. Relutando, a ave travava a garganta para evitar ser sufocada. Sem êxito na empreitada, Cida apertou-lhe o pescoço e empurrou à força o comprimido quase até o estômago da bichinha. Ufa, foi difícil, mas salvei minha predileta.

No dia seguinte, logo cedo, a Mãe, por curiosidade, foi checar a maritaca. A bichinha estava dura feito pedra, um espantalho de ave.

Dá-lhe paracetamol, eita genérico bom!

09 setembro 2008

Escolha a mentira verdadeira

As listras do travesseiro
eram sua companhia
Azuis, brancas
Ofuscantes às vezes
Ouvi-las dizer...
Mas, agora, tempos depois,
tarefa complexa essa tal
de lembrança
Disseram de novo
Baixinho
Palavras vazias
Inexpressivas
inauditas
"Feche os olhos! Esqueça!
A memória é a personificação
da loucura!"
Lembrar é uma farsa
(Que abuso)
Criamos quando necessário
Mentir é rotina
Rimos da verdade
Juntos, em uníssono
"Você não existe"
Sangue quente
Imaginação fértil
Dormirei
Vou-me embora
pra escolha.

Um as Im a ge ns

Dormir é paz
Este sorriso
(gargalhada)
Uns tiros
O ventilador
A luz
A respiração
A vacina
E o gato?
Cocei a cabeça
Polícia
Todos dormindo
Alguém, lá, entra
Amanhã,
ao acordar
Tudo será
uma só procissão
de imagens sensitivas
despedaçadas
in
ca
paz
e
s
.

3ª parte - Falei, falar, não.

Virei as costas
Ela sumiu
Indiferente poderia
Quando, que tempo
insistente
Negra, pele ou olhos
Ruiva corpos odores
Tudo todas aquilo
aquela aqueles
Imagem forma desenho
pefil fôrma
Dentro, a estaca
Além, o instante
era
foi
seria
deixou
se...
não.

2ª parte - Falei, não falei

Falei
ela é negra
Dois dias e mais nada
Chorei, adolescente
Rodas de samba
Cerveja
churrasco
Óculos, livros, político, Tom
João
Ando sem espaço
Livre dos outros
Preso a mim
O espelho da consciência
me carrega
A pinga, só ela
meus olhos mê vêem
Meu pai não me atende...

1ª parte - Falar, não falar

Falar
não falar
falar
não, falar

Não falei
Os olhos são negros
Nunca mais a vi
Depois ganhei roupas
Estou no carro
Cético
Objetivo
Aspirina e Café
Uísque à noite
Sono de sonhos
(elas se contorcem
E eu, sorrio)
- É, preciso agora
de um remédio
mais forte
Onde estão meus pais?
Um tempo ausente
o relógio andou, está aqui do lado
voltou

06 setembro 2008

A dança do acasalamento EM SI.

O sexo é uma coisa estranha
A gente acha que são dois
Mais parece que é um por si
e outro só,

outro só
e um por si
(vice-versa
e versa-si)

Vem o malandro e reclama:

"É se é mais de dois?"

Até parece que´le pensàlem
de si...

Se são dois, três ou trezentos,
faz diferença nada,
na hora de ver, beijar e gozar (sofrer)
Dois é que se encontram
e de novo vão eles:

é um por si
e outro só
(versa-e-si
e outro lá)

O tema é desilusão
porque moral vocês conjugam
e lá, quando as paredes é que olham,
Não tem sexo, não tem nada

é um por si mesmo
e só

(sem respirar e ver)

Um morto, outro vivo,
um morto, outro vivo...

08 agosto 2008

Implícito

A maneira e o lugar comum
O princípio do precipício
Aberto
Ilícito
Incerto
Implícito...
No pedaço de espaço
O chamado
O amor
A doçura desse pensamento
Incendeia
E eu já não quero o teu amor
Eu já não sei querer
Mas há ainda o que me alivia
Há a imagem, a paisagem, a sintonia
Há a vontade, a vaidade, a fantasia
E se nada mais houver meu bem
Guarde pra você
Nossa poesia.
Guarde pra você
O que poderia...

(autor desconhecido)

07 junho 2008

Vírgula-em-fim

Um rosto agora.
Um sorriso depois.
Uma tragéia bem vinda.
Um ponto final.

Um dia depois do outro.
O corpo se desfaz em nós.
Quero saber da menina.
Quero saber da senhora.
Quero saber de sua prima
Quero saber de sua antiga.
Quero saber do seu depois.
Queria muito.
Queria no entanto.
Queria embora.
Queria pra tudo.
Querer é fazer.
Querer nunca foi poder.
Querer o teu rosto.
É uma pausa eterna.
E as pausas só no inferno.
Na vida tudo se vai.
E um dia a gente fica.
E uma vírgula por fim,

Não

Hoje foi um dia.
Amanhã seria outro,
não fosse a presença
de ontem.
Hoje, ontem, amanhã:
três tempos sem definição
quando se pensa em um
ou outro partiu.
Estar com eles?
nunca.
Resta saudade]
é nela que os cacos se juntam
e uma imagem em frangalhos se forma.

11 abril 2008

Terror

Engoli meu coração
e ainda foi sem respirar.
Ainda pulsando
pude senti-lo pensar.
Mas como?
Lógica e sentimentos?
Então, discutimos,
E o coração tomou a palavra:

- Sinto o azedume do estômago
Tenha a pele rompida
As artérias fechadas
Meu sangue agora é nostalgia
Penso porque me contorço.
Não me deixe pensar no escuro
do silêncio
Voz antes sonora, grave
Agora metálica, no fim.
Fujo de mim para não vê-lo
Ligeiro, vago para onde

Longe
Escondido em tua impressão
Está quase a minha presença
Mas estar para não perpetuar
É um não-ser absoluto.
Um morto no seio do corpo aquecido
Um paradoxo camoniano
Aqui arde, ali eu vejo
E quero mais
Durmo para que minhas impurezas
Se diluam até tomar forma de idéia
E partir para a inexistência do sentir
O coração em disse
E eu continuo...

Lugar plástico

Praia. Onde posso estar sem precisar olhar para os lados, inquieto. A brisa que emana de ti acaricia-me, adula-me, consola-me, faz-me ser. Entre o céu, o solo, a água e o vento, espero para morrer em paz, porque lá, naquele fim onde tudo se encontra, no horizonte, estamos nós dois.

Entre a areia e aquele derradeiro instante, temos um espaço, grande, por vezes perverso, desconsolador, intragável, aterrador... intestinos a esses vagos dissabores, está NOSSA existência, o aroma cego, a despalavra, a cintilância dos escuros, como dira Manoel de Barros. Inconstância humana, como os olhos de ressaca de todas as capitus e bentinhos.

22 janeiro 2008

Ficar

Tenho um vício: sentar-me à varanda.
Ficar, ficar, ficar...
Não sei o que vejo.
Nem penso o que sinto.
Sei que fico, fico, fico...

Tenho medo de morrer ficando...

Quando sou, lembro, e quando lembro, penso.
Sei que sinto porque penso que sinto.
E assim deixo de ficar.
Só sinto ao me deparar com a vontade imensa
de retornar àquele instante
que não é lugar
não é matéria, não é espaço
é um tempo sem toque
um vestígio de encanto
é o sopro suave da melodia que percorre o ar
sem seu amparo.
Para o impulso
existe apenas a motivação de sua presença.
Não é seca nem amarga a tensão que nos impele a fazer
(não a pensar).
Não é nada
Porque dizer é tentar saber.
Saber não se sabe
Sentir é sentir.
E ficar é sentir sem precisar pensar em sentir.
Ficar deve ser amar, pois.

17 novembro 2007

Encontrei-me enfim

Pedi ao garçom uma cerveja
E... nada.
Pedi ao meu amor um beijo
E... nada.
Lembrei que não bebo
Que não tenho amor.

Então pedi à solidão uma cachaça
E... claro, duas.
à saudade pedi uma dose de whisky
Recebi... com muito gelo.

Abraçado com saudade e solidão
Bebi até a aurora e
(As três me acompanharam ao leito)
O tempo nos fez unidade
Dia que não nasce
Homem que se faz Agora
Na inquietude da saudade
Pelo sentimento que nunca foi
Na angústia da solidão
Um vínculo entre ser e tentar
Sou fragmento

O negro, do céu não partiu
A noite tomou o dia
Essa cor fundiu-se à minha alma
E de tons fúnebres, demasiado humanos
Por entre cinzas e pretos
Perdi-me de vez.

Comentários do EU-LíRICO sobre a sua poesia:

(Se você quer entrar para o meu dia, querida
Seja mais que uma mulher).
(A noite tomou-me,
casei-me com a madrugada,
sou cunhada da alvorada,
filho da batucada).

Uma morte em vida

A doença que te escolhe
É a dor que te engana
Sentir é doer
rasgar-se
voltar-se para si
e perder-se
Sentir sem sentir
É doer-se
Destruir-se
Escancarar-se
Desmedido
Que vida.

Sem destronar
Não posso querer
Sem destronar
Não posso querer
Sem querer
Não posso ser
Nem estar
Quero temer
Porque ter medo
faz-me sentir
e no infinitivo eu vou
sem saber a rima
sem cantar
sem melodia
cantando pelas ruas
como doido varrido
escorrendo sangue
derramando lágrimas
esculpindo deformações
.Sou como nunca
Sou o eterno viver
Em busca de não sei o que

Na angústia me encontro
Sei quem sou eu
Porque quero ser
No presente
Nesse tempo
de maledicências
farrapos
maltrapilhos
Conduzo minha rotina
Com um gole
Um suspiro
Um copo
E mais outro
No gargalo eu vou
Garrafas
E mais garrafas
Prazeres da surdina
Solidão sem fim
Acolhido por vocês, minhas companheiras
Descanso sem dormir
Se um dia voltar acordar
Desses olhos abertos
Estarei morto.

19 agosto 2007

Gigi

Entre Baudelaire, Verlanie e Mallarmé
Símbolo que só se encontra na pureza inalcançável das essências
Entre os sentidos, atrelo-me às tuas primazias através dos olhos
Vejo-te entre tantos, encontro-te no nebuloso tumulto das cidades
O formigueiro de gente, de gentes, só te encontro porque és a materialização
do perfume eterno do prazer, do ser...
É no azul, cinza, verde dos olhos que gracejas entre aquelas que se dizem belas
Mas beleza é um estado de espírito perceptível somente pelo encontro entre almas
Não uma linha perfeita desenhada no corpo feminino
Do corpo, mera existência física, o tempo se nutre, até em nada construí-lo
E é neste instante que seu afago se insinua, sensual, sem materialidade,
mesmo em vida, mesmo sem o tempo ter-te chegado a tocar, pois és senhora do tempo, vem antes dele.
Nada de platonismo, nada de essência, nada de idealização:
Humanidade rara é sinônimo de estranhamento,
portanto que sejas diferente, que sejas tu a artífice do novo existir entre a harmonia...

(...)

Lembre-se: Vinícius é um estado de espírito
capaz de ser incorporado, não muitas vezes, mas nos dias exatos.
Poesia é um nome, Vinícius sua essência.
Que assim se viva.

12 agosto 2007

Relembranças

Vivo no espaço tênue da tentativa
Pareço-me um ingênuo quando lembro
dos desejos, dos encantos, das lamúrias
Parecem-me encontros que não são,
Quando tempo tem?

Se os versos têm, sinto não ter a ventura
de poder, de querer sem ter uma voz,
que impele o homem para dentro de si
incapaz de romper
Sois um idiota.

Dizem que temo os outros em troca do viver
Prefiro aterrorizar-me diante da simplicidade
Tenho prazer pelo desprazer
Portanto não saberia viver

Os versos me tornam um amante do anacronismo
Um antiquado homem ingênuo cercado pela realidade
Mas ela me torceu o caráter
Desfez minha personalidade em tom de amargura
Uma pedra no centro do caminho
agora é minha disposição impenetrável de ser
Meu tempo não é quando, nem sempre, nem hoje

é antes uma espera
ora dolorosa, ora pacífica
ora suave, ora terrível
um tempo sem tempo
mais parece estar retrocedendo

Organismo que lamenta, que chora
mas que reconhece a existência de uma voz
sabe-se lá em que canto, em que tempo, em que cidade

Digo: não sei se reconheço, apenas percebo que já ouvi
mas era doce, humana, sensual, cativante, a mais deliciosa das melodias

Digo: hoje não existe.
Termino: a felicidade está no sofrimento do sempre presente
que no canto escuro do bar elevará uma simples voz ao veludo dos deuses.