09 outubro 2011

Sem ver

Vou esquecendo seu rosto. Olhos abertos ou fechados; de dia ou de noite; no verão ou no inverno; em casa ou na rua; sorridente ou choroso; você vai se tornando uma ideia, lá longe, onde nem a inconsciência tem o poder da reconstrução. Lembro momentos, mas não do seu estado físico; enxergo nossas sensações com a pele, acontece de arrepios vagarem meu corpo só de imaginar.
Na cama, quando havia luz, nos entreolhávamos e um de nós se levantava para desfazer aquela imagem limitada de nossas visões: luzes, nada de luzes. Aquele que apagava, retornava vagaroso e se ouvia o respirar mais leve, enquanto a cama se movia pelo toque do corpo. Inicialmente permanecíamos de olhos abertos, mas era uma luta insensata, porque não precisávamos deles. Então, logo que sentíamos o outro, naturalmente a visão sucumbia ao prazer. Eu via você. Via de dentro de mim e no seu interior. Sentíamos um ao outro. A pele se aproximava e se encontrava na escuridão pela quentura e pelo cheiro; abandonávamos nossas mãos, deixando os dedos um tanto tristes: queriam muito tocar. Não precisávamos deles também: descobríamos cada limitação física e, aos poucos, aprendíamos a traspô-las.
Éramos pele e odores. Reconhecíamo-nos no estado mais primitivo do contato entre os seres, fundindo nossos sentidos, confundindo cada um deles. Do cheiro, conseguia distinguir a coxa do seio, o seio da barriga, a barriga do pescoço, o pescoço das bochechas, as bochechas dos lábios, os lábios da testa, a testa dos pés, os pés dos dedos, os dedos da canela, a canela dos joelhos, os joelhos da parte posterior da coxa, a coxa de cada nádega, uma nádega da outra, até onde pudesse ver a surrealidade: pelo cheiro, sabia se me aproximava dos grandes lábios até perceber o seu clitóris.
Minha língua queria, queria sempre muito, mas você sussurrava, encantada: “sem pressa, sem pressa”. Nosso ritmo era o compasso oposto do mundo. Oposto? Será mesmo oposto? Se fosse lento, a oposição faria sentido. Contudo, o conceito do tempo nos era uma abstração, por isso oposição jamais: fomos capazes de dominá-lo e moldá-lo como uma miniatura insignificante. Não vivíamos no tempo, vivíamos um estado de consumação, em que não existem ponteiros, badaladas, pêndulos, nem marcadores analógicos ou digitais. Para alguns, o tempo se marca em horas; para outros, em noites; para alguns, em estações; para muitos, o tempo é uma garantia de sucesso, vale muito, muito em notas coloridas em rostos de gente famosa que ninguém conhece; para poucos, o tempo se marca em livros, não em dias; para nós, a realidade não era tempo: nossa realidade mastigava relógios e fluía a cada pulsar de sangue a percorrer as entranhas dos nossos corpos, embriagados pelas sensações intermináveis dos gostos de pele, dos cheiros de excitação, dos sons impulsivos e do toque: através dele, quando distantes, lembrávamo-nos daquele sinal nas costas, do nariz um tanto torto, das sardas no rosto e nas costas, das cicatrizes (no quadril, no joelho esquerdo, no dedo mindinho, na sola do pé direito); do desenho incomparável de nossas bundas, de seus dedos de pele macia, mas de forma robusta. Vivemos os sentidos, sem tempo, sem espaço, acima de tudo vivemos cheiros de formas. Quando minha língua tocava suas costas pelo centro, desde o quadril até chegar à nuca, seus poros se abriam como vãos infinitos, como a pedir que me perdesse nos seus labirintos de sensações intermináveis. E eu me lançava neles, capaz de ser um microporo em seu corpo apenas para compartilhar do arrepio de pelo por pelo.
Seus espaços vazios se preenchem pela capacidade de transformar em eternidade as sensações. Você poderia ser qualquer outra, porque não tem mais nome, nem sobrenome; não é mais um rosto de olhos de cores específicas; nem mais um sorriso por causa de uma forma particular de face. Você se transfigurou na potencialidade dos meus sentidos quando penso em nós dois. Não vejo você. Aprendi a sentir em demasia pelo vasto encontro de nossas realidades. Não vejo você. Consegui ser pela sua ausência. Não vejo você. Agora, sou capaz de me traduzir nas profundezas de uma pequena sinestesia. Não vejo você. Porém, você estará comigo para sempre. Deveríamos mudar o nome para o que tínhamos: de namoro para sinestesia. Esquecer? Nunca. Esquecer seria deixar a mim mesmo em qualquer esquina; seria abandonar minha própria história; seria despir-me daquilo que se transformou em mim: não é só você, nesse singular egoísta: vocês. Agora sim, honesto e corajoso.

6 comentários:

Ingridfig disse...

Nossa, Fred fico realmente sem palavras pra esse texto. Encanta qualquer um, emociona. Envolvente, realmente envolvente.

Raíssa Christini disse...

cheiro de Chet Baker na madrugada
textura de luar
melodia de quadro de Francis Picabia
gosto de filme do Almodóvar

obrigada pelas sinestesias.

Luan Ribeiro disse...

Sabe aquela sensação de ondas, quando se sai do mar? Senti. Tem problema?

Fred Pagnuzzi disse...

Problema?! Que problema o que!!!!

Giovanna Bhering disse...

Engraçada sua metáfora ultilizando a sinestesia.
Sinestésicos para a neuropsicologia são individuos que conseguer sentir as cores, cheirar olhares, ouvir gostos. E o que mais seria o amor ou a paixão do que uma grande histeria dos sentidos?

Lindo texto!

Iguimarães disse...

Sempre depois...
Sempre depois vemos
No dia,no presente,no hoje só olhamos.
Sinestesia hoje.
Ontem amor
eterno
infinito
Para sempre.