15 outubro 2009

OLHOS - PRIMEIRO ATO

Ela ouviu e veio falar, sentia-se bem, reconhecia-se. Ele aceitou, sentou e conversaram. Ela falou mais, receosa, afinal, quem era ele? Palavras medidas, à espreita, querendo dizer, mas evitando falar: o terreno era movediço, estranho, precisava de tempo.

- A exposição é sua própria morte

O mundo vive de olhos; as paredes, as portas, as ruas, os restaurantes, os carros, todos têm olhos sequiosos, porque suprem sua sede a partir das histórias alheias. Os outros vivem de estórias, mas não as deles, mas não as reais: criam, e sem criar suas existências assumem a forma de cadáveres. Precisam do elemento externo, vivem dele e para ele. Agir assim pode fazer pressupor solidariedade, comunhão, apreço e cuidado com o outro. Contudo, não abrace a causa como o absoluto divino, distancie-se, seja. Este que vive do outro é um egoísta nato, pois preenche o seu vazio vital através de falácias e experiências alheias. O que se diz não importa, mais vale é dizer, e assim a ausência compõe-se pela fantasia.

Os olhos devoram a intimidade do outro, engolem sem antes mastigarem uma única vez e deixam para o ácido estômago toda a tarefa de absorção.

E o estômago ácido, que ele é? Aqueles que ouvem as estórias, reproduzem da uma delas e ainda julgam-nas com ar superior. E ácido é ressentido. E ressentido é quem se vê no espelho pela manhã e gostaria apaixonadamente de ser outra pessoa.

- E eles (ela e ele) permanecem conversando...

16 comentários:

Carol da Matta disse...

porque viver ultrapassa qualquer falácia e a experiência do olhar é indizível.

Um beijo, querido.

Carlos disse...

Mas e o olhar dos outros, quando nos cercam e nos destroem?

Fred Pagnuzzi disse...

Os olhos nos representam, dizem sem palavras o que existe de mais sombrio e ao mesmo tempo mais puro dentro de nós. Como olhamos, este é o problema...

Maryanna disse...

Quando os outros não existem, eles precisam de nós, porque nós existimos... Ou será que somos uma aberração diante de tantos olhos?

Fred Pagnuzzi disse...

Eu tenho medo dos olhos dos outros. Mas encontrei uma proteção: a reflexão sobre as palavras alheias. Pensar é o antídoto mais eficaz contra a idiotice e o autoritarismo.

Pedro disse...

Por que temer os olhos dos outros?

Aline Mendes disse...

O que vocês me dizerm daqueles que vivem pra falar sobre as nossas vidas?

Andre Vasconcelos disse...

A privacidade é fundamental. Não quero portas e janelas abertas, a não ser para os meus amigos e minha familia.

Thiago disse...

Acho que falta realmente é diálogo entre as pessoas. Por isso precisam olhar para os lados...

Fred Pagnuzzi disse...

Uma voz ecoa
Apenas uma
Que se multiplica
E se torna uma imensidão
As vozes tomam posse
Se tornam políticos
Ganham nome
Se transferem para o planalto
Outras vozes
Acreditam
E ficamos todos
Em vão
No chão

Malditas vozes
Precisam de uma lata de lixo
Restos de comida
Fome
Fome
Fome
Fome
Fome

A fome despertaria o homem
Mas por que a fome
Se eu tenho um rodízio?

Diogo disse...

Quem fala dos outros, esquece a si mesmo.

Quantos de nós já não estão por ai, abandonados?

Ju Bessa disse...

Fred,
por algum motivo me veio esse troço que escrevi há um tempinho...vai que serve...rs Bjs
http://piscadelasanuais.blogspot.com/2009/01/cem-cerimnias.html ve...rs Bjs

Camilla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Camilla disse...

Todos vivemos um pouco de nós e um pouco do outro. Há, é claro, os mais desesperados, desequilibrados que, como sanguessugas, aliam-se a alguém, sugando-lhe não o sangue, mas a alma. Será porque são covardes, será porque são ocos o suficiente para não construírem nada de significante em suas vidas, ou será apenas consequência de um sentimento de insegurança meramente humano? Estariam os papéis invertidos e nós, "os outros", que estaríamos a nos preocupar demais com "o outro" a ponto de criarmos um debate (tão atraente) à sua custa? Ou pior: seremos TODOS tão preocupados com NÓS MESMOS que essas sejam atitudes fundamentadas em um egoísmo cego, de uma vaidade tão entranhada que imperceptível aos próprios olhos e fazemos tudo isto para inibir os holofotes (próprios ou alheios) sobre cada um de nós?

E num singelo gesto um tanto egoísta, volto à primeira frase, deixo minhas perguntas para vocês e me abstenho de pensar em respostas.

Friedrich disse...

O outros olham para fora de si com um desejo insano de tê-los e sê-los.

Podem, também, apenas olhar, e olhar não é crivar balas, é apenas um processo de observação necessário aos homens, inerente a eles. Por que deveríamos deixar de observar?

Camilla disse...

Não devemos deixar de observar. A observação, seja ela construtiva ou não, é ao menos sinal de algum resquício de lucidez de consciência. De que nossas mentes (ainda) estão sadias o suficiente para não se contaminarem por esta epidemia de inteligências cômodas e moribundas que nos tenta. Criticar, questionar, atentar o que nos é aparentemente alheio é sempre uma forma de autodescobrimento. Carregamos, como uma cruz, um turbilhão de sentimentos que a todo o tempo se chocam, se anulam, se multiplicam. Somos, no fundo, reflexos distorcidos um do outro, e se procurássemos nos conhecer melhor, encontraríamos em cada "estranho" apenas um pouco do que há em nós.