02 dezembro 2006

De finha

O pequeno foi morto
Roubaram a dentadura do pai
Vendaram-na pelos olhos do filho
Só há sangue no rio
Bebês
Todos corpos levados pelo tempo vermelho
Pregos em tocos, enterrados nas costas
Água de sangue, gente de corpo
Vendidos na feira
Como farinha, mandioca e feijão

Abre-se o corredor: ai vêm os deuses

A criança sofre morte sem saber
Queria brincar mas foi adoradora de desejos
Beberam do vinho
Embriaguez, sorrisos

Da gargalhada: morte.

Mais um dia – como o dia.
Não houve causo a se contar.
Somente o mito escondido
pelos olhos de todos
que não querem além de seus cílios
e unhas postiços.

(Assim tomo palavra – breve como o tempo)

Saio do poema que é prosa muito acima de qualquer poesia, para ter com vocês uma conversação. Deixo pedras em seus calos, não quero que andem sem a desagradável sensação da dor, constante, latente. Não sei porque tento acusá-los, cruxificá-los em nome de minha própria sociopatia. Se não posso conviver harmoniosamente com os outros, trato de destrui-los, um a um: passado de meretrizes, vida de cafajestes, um prostíbulo que toma a feição de lar burguês, bucolismo do campo afeito à devassidão dos corpos, encontros e desencontros propositais, dos quais as feridas são cultivadas como cães estimados. Se sou mal como Hitler e cruel como César, desejo a todos apenas a poesia, mas que seja doída, que na desgraça voltem ao texto. Não, isto não é uma tragédia edipiana, pelo amor de Deus, estamos no século XXI (e não me venham com conversa de complexos).

A poesia quer tornar
mas a prosa é antiética:
Encanta os homens pelo texto sensacional, de encontros e amores ordinários e fins fabulares. Sente-se um alívio pós-prosa, um fulgor de vida que só se extingue na manhã seguinte com mais um dose de prosa. Psicanalistas, psiquiatras e todos os especialistas no comportamento e travessuras humanas deveriam reconstruir as bases de suas teorias: bastam doses homeopáticas de uma prosa amena, cool (como diriam os jazzistas americanos para o jazz técnico e compassado) e leve (sem poesia, é claro), para reeguer os leitores (pacientes) de seus leitos todas as manhãs. O fim do marasmo, cotidiano agora debulhado em sorrisos e fins emocionantes, tal qual o que lêem. Ela preenche até o vazio religioso. Pronto: a bíblia do homem será a prosa, mas baseada nos confins da Sibéria.


Do eterno mau-olhado
Segue a prosa sem canto
Clamar o espanto
Merece prisão
Se todos fingem que sentem
E outros fingem que crêem
Matemo-nos a todos.

Esta poesia não faz sentido
como nenhuma outra:
tenho nas mãos uma calcinha
(minha cunhada)
nos armários e no corpo, ávidas e enlouquecidas

(Nelson Rodrigues e Rubem Foseca: dois iniciantes para mim)

São mulheres de amigos, de parentes, ou do meu pai
não faço poesia, só sexo.
Coleciono calcinhas, mas só de mulheres de gente que amo.

Se vir aliança, melhor!

A poesia não começou: ela é isso. Não há melodia nem canto, é só carne e suor. Todos se tornam gente com calo nos pés, mas não sentem dor porque a dor vira anestésico. Se não sentem, não há culpa, piedade, remorso ou limite: o corpo dormente se sente ivulnerável, aquilo que cada um mastiga é o desejo de ser, é o futuro. Mastigar, mastigar e engolir, esta é a prosa-poética do nosso tempo.

2 comentários:

Gi disse...

Pooota que Pariuuuuu....Show! =)
!!!!!!!!!!!!!!!

carol disse...

muleque, vc tá foda!

pós-moderno(?) total...